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TRÊS DA TARDE

Nunca fui um ás em geografia. Lembro-me que, na escola, a diferença entre planalto e planície era apenas mais um motivo para o meu boletim ostentar o temido vermelho. Essa foi inclusive, a primeira vez que me senti repreendido por meu pai, como se o estivesse decepcionando de alguma forma. Hoje, com a maturidade, vejo que não era raiva; ele só almejava mais esforço e comprometimento. Aquele impacto me fez refletir. Admito, não me tornei um geógrafo, mas passei pela escola sem esgotar o estoque de canetas vermelhas da diretora.


Quando somos mais jovens, tudo parece ter proporções épicas, não é? Pensei que o mundo desabaria quando a Halls descontinuasse o sabor pêssego ou o SBT parasse de exibir Thundercats.

No fim, sobrevivi aos dois.


Certa vez, recebi um questionamento de alguém que tem o poder de paralisar minha lógica e me fazer pensar:

“A criança que você foi, sentiria orgulho do adulto que você se tornou?”.


Percebi o quanto nos perdemos, negligenciando nossa essência.


Em um universo que corre mais rápido que Usain Bolt nas Olimpíadas, eu me sinto como um fusquinha trafegando na contramão. Recuso-me a ser engolido por uma cultura que insiste em nos uniformizar em frames de Instagram, onde a igualdade é sinônimo de anulação.


Já notou como nos apegamos ao grande e deixamos as pequenas sutilezas escoarem? Ao fim, focamos na dor da ruptura e esquecemos a leveza dos momentos vividos. Mudamos de emprego, de amigos e de lugar, ignorando a atração magnética que nos fez voltar àquele ponto por tanto tempo. Somos como João e Maria, ignorando o caminho e usando um GPS tão frágil quanto migalhas de pão em um ninho de pombos.


E ainda preso, nesse turbilhão de pensamentos, ela sorria para mim.


Um sorriso que projeta calor no coração. Onde, aninhado em seus braços, meu desejo era congelar aquele instante, em um encaixe perfeito.


A verdade, porém, é que a vida é mais breve que aquela coçada disfarçada no nariz durante uma reunião, mais veloz que a troca de pneus em um pit stop de Fórmula 1.


Eu só almejo mais desses momentos com ela.


Será que isso é saudade? Sentir sua falta antes mesmo que o instante acabe? Seria ansiedade? Ou é a minha forma de expressar amor?


Como o príncipe de Saint-Exupéry, que afirma: “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz”. Me sinto em uma reação química incompleta, esperando pelo elemento catalizador.


Desde que a conheci, meu relógio marca, eternamente, três da tarde.

 
 
 

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