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TUDO QUE EU PRECISAVA ERA MUDAR MEU CEP

Noventa por cento das coisas que tememos, o peso morto dos problemas que antecipamos, na verdade, não são reais. Muitas vezes, são meros fantasmas que nem sequer chegam a bater à nossa porta. Vi o Will Smith falar isso em uma entrevista para o David Letterman, e aquilo me acendeu um pavio de reflexão sobre a mente humana e sua tendência neurótica ao catastrófico.


No início do ano, o apartamento que eu morava foi vendido. A notícia, mesmo já esperada, me atingiu como uma pontada de incerteza. Eu adorava o prédio antigo; ele tinha alma, sabe? Na rua, um restaurante japonês, um mexicano, uma padaria e uma hamburgueria. Minha rua era um eterno e delicioso rolê gastronômico. Como não amar um CEP assim?


Foi muito difícil achar um novo apê que eu topasse chamar de lar, que eu entrasse e enxergasse minha vida já pendurada nas paredes.


Lembro-me de, em uma das minhas orações, pedir a Deus que me direcionasse, que, independente de qual fosse a bússola da Sua vontade, eu estaria aberto. (Sim, confesso que tem momentos em que essa entrega me desperta um medinho em tom de riso, rsrs).


Depois de muito procurar e quase desistir, encontrei um local que ticou os itens essenciais da minha lista de nova casa. E, aos poucos, fui desdobrando minha história no novo endereço.


Descobri que tinha uma praça a dois quarteirões, meu novo divã a céu aberto para caminhar e refletir sobre a vida. Havia também uma loja de conveniência que vendia uma paçoca que merecia prêmio e, de quebra, todas as delícias gastronômicas da antiga rua estavam a apenas 15 minutos da nova morada. O novo apartamento, contudo, era mais espaçoso, de melhor acesso. Assim, fui percebendo que a mudança tinha sido, na verdade, um salto.


Foi quando a chave virou de vez. Quando a lista de surpresas que a mudança me trouxe estava quase completa, veio a cereja, o grand finale.


A vizinha que não satisfaz o clichê de "me empresta arroz ou açúcar", até porque compartilhamos a preferência por café puro, sem aditivos. A vizinha que me compartilha abraços e trocas sinceras, e cuja relação é tão intensa e reveladora que o termo "vizinha" minimiza o que temos, o que descobrimos que existe entre nós a cada dia.


Nossa química ignora se o vetor se apresenta na horizontal ou na vertical. Se o traje é pelúcia ou salto alto. Isso vira detalhe, mera perfumaria entre nossos risos.


Somos um poço de piadas internas e carícias sinceras. Ela entendeu como me trazer paz apenas com um olhar, e eu aprendi a ler todos os seus pontos finais – e mesmo achando que poderiam ser vírgulas, sou versado em seu idioma. Aprendi a lê-la com o olhar e com o toque. E nessa leitura em braile, me perco em suas curvas.

 
 
 

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